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Um dos pensamentos mais comuns ao trabalhar num contexto de espaço público é a ideia de que ao colocar um espetáculo num espaço partilhado e público ele se torna automaticamente numa experiência acessível a todos.
O espetáculo está ali, gratuito, sem barreiras físicas ou financeiras aparentes, em comparação com as ofertas culturais promovidas em equipamentos culturais. É amplamente reconhecido que a apresentação de trabalhos de rua democratiza o acesso à arte, ao mesmo tempo que cria um impacto multifacetado e duradouro para os habitantes desse local. Além disso, os dados e análises de público demonstram que, no geral, os públicos das artes de rua refletem a demografia local de uma forma que os seus homólogos em espaços fechados não conseguem. No entanto, o acesso ao espetáculo em espaço público não é garantido.
Examinar e abordar os obstáculos intangíveis que impedem os eventos de rua de serem totalmente acessíveis e inclusivos é uma prioridade fundamental para muitos de nós que trabalhamos neste setor. Certamente, é uma prioridade para a Without Walls, para as nossas organizações aliadas em todo o Reino Unido, bem como para vários dos nossos parceiros internacionais na Europa e fora dela.
Historicamente, as cidades com maior densidade populacional e com maior poder económico têm tendência a atrair os maiores investimentos em artes e cultura, contribuindo assim para uma dicotomia entre áreas culturalmente "servidas" ou "não servidas".
Embora assistamos a uma descentralização da oferta cultural não só no Reino Unido (particularmente com iniciativas como o programa "Levelling Up") mas também um pouco por todo o continente europeu, é crucial que este desenvolvimento seja mantido e alimentado ao longo do tempo para garantir que mais pessoas possam aceder às artes de rua, independentemente do seu código postal. Organizações envolvidas em programas como o Creative People and Places e as redes de Touring e Creative Development da Without Walls são essenciais para garantir que públicos em toda a Inglaterra acedam a artes de rua da mais alta qualidade. Isso, por sua vez, contribui para a criação de um maior sentido de lugar e de pertença, bem como para a redução das desigualdades no bem-estar.
Somos afortunados por ter uma vasta gama de artistas a trabalhar no espaço público, cujas contribuições e qualidade de trabalho são do mais alto nível, e que também se identificam como pertencentes à “Maioria Global”, queer, LGBTQI+, surdos, pessoas com deficiência ou neurodivergentes. A representação é fundamental quando se trata de mostrar a diversidade do trabalho que existe no espaço público. Sendo necessária para desmantelar as concepções obsoletas de quem pode ou não ser artista e quais as narrativas que podem ocupar esse espaço. Pode também ajudar a derrubar barreiras para aqueles que valorizam ver-se representados, recebendo isso talvez como um convite ou um símbolo de tranquilidade.
Dito isto, é crucial sublinhar que os artistas diversos nunca devem carregar a responsabilidade de representar comunidades diversas, histórias ou, como Vicki Dela Amedume afirma no Big Village’s Manifesto for Action, ter o ónus de atrair novos públicos.
A diversidade é um tema complexo e subtil que deve ser primariamente examinado dentro de cada organização para promover um envolvimento significativo e mudanças na liderança, além de possibilitar colaborações criativas. Um exemplo de envolvimento significativo é a programação partilhada, com exemplos como o My Leeds 2023, que integrou o ano da cultura, que convidou 33 residentes locais a programar programas no espaço pública em cada freguesia da cidade, criando experiências culturais para públicos nos seus próprios bairros.
O que é que esta abordagem faz ao sentido de comunidade e de apropriação das artes de rua que são apresentadas e, portanto, ao modo como as pessoas acedem a estas experiências?
O que faz com que os públicos se sintam convidados e participem ativamente em eventos no espaço público?
Quão inclusivos são os diferentes níveis que fazem os festivais acontecer? Desde as performances que vemos nas praças, parques e ruas até ao trabalho que acontece nos bastidores, quem é admitido?
Como as pessoas, processos e mecanismos em vigor estão a definir quem pode ocupar esse espaço e como pode interagir com ele?
O Reino Unido é visto como um pioneiro na oferta para públicos surdos, com deficiência e neurodivergentes, mas a acessibilidade é um processo em curso e ainda estamos a aprender. Questionando constantemente, tentando, falhando, reaprendendo e tentando novamente. Artistas com experiência de vida em deficiência devem ter as suas necessidades compreendidas e atendidas para criar o trabalho brilhante que desejam fazer. O público com deficiência deve ser priorizado ao considerar as barreiras existentes nas artes de rua, o que significa fazer melhor e trabalhar em parceria para compreender abordagens e pressupostos de evolução. Significa também partilhar o conhecimento com artistas e organizações, criar recursos e guias para fornecer um roteiro para uma melhor acessibilidade em eventos em espaço público, bem como criar iniciativas para partilhar a responsabilidade por esta jornada entre todos os intervenientes.
Oportunidade, direito, liberdade, capacidade: estas são palavras relacionadas com a definição de ‘acesso’. Vamos usá-las para ancorar as nossas estratégias e ações, questionando continuamente o que estamos a fazer para desmontar barreiras existentes e criar uma mudança positiva.
Fotografia: Patois, Brighton Festival 2024 © Claire Leach Photography
Irene Segura é uma produtora criativa quadrilingue e coordenadora internacional de artistas na Without Walls, a maior rede de artes de rua do Reino Unido, onde lidera as relações internacionais, o desenvolvimento profissional de artistas, assim como a equidade, diversidade e inclusão.
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